Na vertente de universalidade da doutrina do Cristo, enquanto Messias, embora se trate de um relato de dupla interpretação, é possível inscrever a instituição do profetismo segundo a promessa feita a Moisés : “Um profeta (o Cristo do Senhor) — diz YHWH — suscitarei (anastasei = ressuscitar ou suscitar; ressuscitar dentre os mortos ) do meio de ti, (e) entre teus irmãos” (Dt 8,15; At 3,22). Segundo o sentido oculto deste oráculo, o que Deus prometeu a Moisés é que em todo profeta ressuscitará “dentre os mortos”, o morto vivo, e que esta será o sinal da profecia, a ressurreição do Cristo do Senhor, o qual para isso pôs sua morada entre nós, e já esteve com o primeiro homem, desde o princípio do mundo. Isto é o que anuncia Pedro em seu “discurso” ao povo que relatam os Atos: “Todos os profetas que desde Samuel e seus sucessores falaram, anunciaram também estes Dias (do Senhor)” (At 3,24).
Com os profetas que “levantaram” a seu morador dentre os mortos há que contabilizar, sem dúvida, a Jeremias e a Isaías (Jo 5,46). Do primeiro destes sabemos que alcançou seu nascimento como consagrado, como “eleito” e que em consequência foi tido por “jovem” (Jr 1,5-7). O profeta foi contado entre as crianças dos que em Mateus se diz que maior no reino dos céus (Mt 18,4). A ele se alude veladamente, no evangelho joanico quando Jesus diz: “Enquanto tiveres a luz (o Filho) credes na luz para que sejais filhos da luz” (Jo 12,36; Jr 13,16) — em Jeremias se diz na verdade: “Dai glória a (manifeste a luz de) vosso Deus”.
Quanto a Isaías, dele se evoca no evangelho seu oráculo: “E o braço do Senhor (o Filho, como manto de luz de Deus), a quem se revelou?”; e se isto se repete no evangelho é porque a Isaías, segundo se afirma, se o revelou a luz do Filho, que dizer, “viu sua glória e falou dele (de Jesus)” (Jo 12,41).
No entanto, os profetas não vêm à consciência, senão que são a consciência. Quando se converte à glória do pai, escuta a alma das palavras que o sopro o leva, e as toma sobre si para, uma vez feitas inteligíveis, pregá-las pelo mundo.
Essa é a obra que assumem os profetas. O espírito recebe a voz direta de Deus, mas a dá em oráculo, e ao profeta corresponde interpretar o sopro divino com o meio indireto do que dispõe, a razão do mundo.
Isso é muito bem explicado na história de Moisés. Desde o acontecimento da sarça ardente no Horebe, era Moisés o intérprete das palavras de Deus, mas logo resultou demasiado pesada a carga para levá-la ele só, e o Senhor lhe disse: Eu os suscitarei de em meio de seus irmão, um profeta semelhante a ti, porei minhas palavras em sua boca (Dt 18,18).
Com isso se descreve a instituição do profetismo, quer dizer, o mistério lúcido de que alguns homens, estão voltados para a glória do Pai, escutam as palavras que o sopro as leva em oráculo, palavras que logo, se são profetas verdadeiros, as interpretam e pregam para todos.
Exemplo disto foi a obra que fez Deus, segundo se relata, com os setenta anciãos de Israel. Uma vez estiveram reunidos na tenda, tomou (Deus) desde a Nuvem, algo do espírito que havia nele e se o deu (aos setenta). Enquanto repousou sobre eles o espírito, se puseram a profetizar (Nm 11,25).
Estes foram os primeiros profetas depois de Moisés, que aplicaram o que explica o texto institucional do profetismo. A porção de espírito depositada por Deus no homem, fala misteriosamente, em oráculo, e alguns resultam então facultados para interpretar a palavra que ouvem e repeti-la em uma linguagem que os demais homens podem compreender.
Parece que os judeus, fundados em Dt 18,18, esperavam ao Messias como um novo Moisés. No entanto, a expectação messiânica só podia vir da promessa do do fruto do seio de varão feita a Davi, pois a promessa feita a Moisés pertencia à instituição do profetismo. (vide DISSE O SENHOR AO MEU SENHOR, onde se confirma que a expectação messiânica dos cristãos fundava em Davi).
Jesus explica isso aos Doze quando os envia a sua obra missionária e os institui profetas, pois os diz: “Não sereis vós os que falareis, senão o Espírito de vosso Pai o que falará em vós” (Apostolado).
Por sua parte, Pedro, relaciona muito bem o profetismo segundo ambos testamentos. Diz, que sobre a salvação investigaram os profetas (antigos), os quais procuraram descobrir a que tempo e a que circunstâncias se referia o Espírito (o Anjo) de Cristo (oculto) “que neles estava” (1P 1,10-11).
O espírito de Cristo está (oculto) nos homens (como a Palavra semeada), e alguns alcançam a descobri-lo por isto ficam instituídos em profetas, com a mensagem de salvação dentro deles.
Isso é o que explica o logion que agora comentamos, e com ele toda a Boa Nova se se entende seu sentido oculto. O “des-cobrimento”, é a vinda dos anjos. Já se sabe: os anjos são uma algo (“algo” do espírito é a expressão que emprega Números 11,25) do Espírito de Cristo (oculto) e eles são os que vêm quando sua presença “oculta” é “des-coberta”.
O tempo e as circunstâncias em que isso ocorre, é a obra de interpretação dos profetas, a vinda deles. Logo, cada um dá o que é seu: o anjo da salvação e o profeta, o Caminho até a salvação.
Por sua parte, o homem tem em suas mãos tudo o que há que dar. Para que venham os anjos, o que está dito: “Nega-te a ti mesmo”; e para os profetas, a continuação daquilo: “Toma tua cruz e segue-me” (Segue-me).
Tudo isto foi muito bem explicado por Jesus:
- Quem recebe um profeta na qualidade de profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo, receberá a recompensa de justo. (Mt 10:41)
Quanto ao Dia da Vinda (VINDA DO FILHO DO HOMEM): “Estai atentos e vigiai”. A vigilância (nepsis) consiste em dizer e entender cada dia, cada hora, cada minuto: “Maran atha. O Senhor vem” (1Cor 16,22).